Posts Tagged ‘Eduardo de Almeida Reis’
Não é coisa que faça todos os dias, até porque seria impossível, mas o leitor do emEM/em não pode imaginar o que seja pedir a transferência de um telefone fixo em bairros centrais da capital de todos os mineiros. Por onde começar? Bem, você começa pelo 102 e conversa com uma gravação: no duro, mesmo, com uma gravação, que lhe pede o nome da cidade desejada, você escande as sílabas dizendo Belo Horizonte e a gravação repete “Belo Horizonte correto ou não”?
Creio desnecessário dizer que, enquanto philosopho, a esta altura já estou às turras com a voz gravada, que me informa, depois do terceiro telefonema, o número que devo discar: zero oito zero zero zero três um zero zero zero zero um.
Disco e sou informado de que o número correto é um zero três três um, mas já me deram um protocolo de 12 números, que anotei bobamente, porque o protocolo final é de 11 números diferentes do primeiro, com as seguintes particularidades: algumas das vozes, gravadas ou não, falam meia, enquanto outras falam seis. E seis se confunde com três.
Finalmente, bumba! surge Viviane na linha, sem que a gente saiba se o seu call center fica em Cametá, PA, Carazinho, RS, no Suriname ou na Índia. Viviane tem sotaque nordestino e o meu ouvido, apesar do recente e bom teste audiométrico, não conjumina, nem sequer congemina com o falar da jovem.
Um sem conto de vezes peço-lhe que repita suas perguntas e acabamos nos entendendo quanto à transferência do número, quando sou informado de que haverá taxa extra de R$ 50, porque a operadora de telefonia fixa e celular é muito pobrezinha, tadinha.
Eduardo de Almeida Reis – Coluna Tiro Queda – EM 11/02/2010/
Não se diga nem se pense que as pérolas sejam privativas dos alunos do lado de cá de Atlântico: do lado de lá as pérolas também são preciosas.
Vejamos algumas que me foram remetidas por um amigo, filho de portugueses, cultor da língua e da literatura d’além mar, amante como eu das boas coisas de Portugal.
1. O Papa vive no Vácuo. 2. Antigamente na França os criminosos eram executados com a Gelatina. 3. Em Portugal os homens e as mulheres podem casar. A isto chama-se monotonia. 4. Em nossa casa cada um tem o seu quarto. Só o papá é que tem de dormir sempre com a mamã. 5. Os homens não podem casar com homens porque então ninguém podia usar o vestido de noiva. 6. Os meus pais só compram papel higiênico cinzento, porque já foi utilizado e é bom para o ambiente. 7. Adotar uma criança é melhor! Assim os pais podem escolher os filhos e não têm de ficar com os que lhes saem. 8. Adão e Eva viviam em Paris. 9. O hemisfério Norte gira no sentido contrário do hemisfério Sul. 10. As vacas não podem correr para não verterem o leite. 11. Um pêssego é como uma maçã só que com um tapete por cima. 12. Eu não sou batizado, mas estou vacinado. 13. Depois do homem deixar de ser macaco passou a ser egípcio. 14. A primavera é a primeira estação do ano. É na primavera que as galinhas põem os ovos e os agricultores põem as batatas. 15. A minha tia tem tantas dores nos braços que mal consegue erguê-los por cima da cabeça e com as pernas é a mesma coisa. 16. Um círculo é um quadrado redondo. 17. A Terra gira 365 dias todos os anos, mas a cada 4 anos precisa de mais um dia e é sempre em fevereiro. Não sei por quê. Talvez por estar muito frio. 18. A minha irmã está muito doente. Todos os dias toma uma pílula, mas as escondidas para os meus pais não ficarem preocupados.
Coluna Tiro & Queda – 18.11.09 – Eduardo de Almeida Reis
Eduardo de Almeida Reis – Pena Capital -14.09.2009
Indesculpável a reação da mídia diante da compra, pelo governo que nos ilumina, de um submarino atômico, mais quatro convencionais e 50 helicópteros. As críticas feitas ao pacote só podem ser atribuídas a um plano diversionista, desviando as atenções de uma verdade indiscutível: precisávamos, sim, de um submarino nuclear. Como será possível combater os exércitos bolivianos se não contarmos com o abençoado submarino?
O desperdício de bilhões de euros que poderiam ser aplicados em escolas, hospitais, estradas e geração de energia – tolice enfatizada pela mídia –, não resiste à análise de um menino matriculado no primeiro ano do primeiro grau. Mesmo que o Brasil não tivesse o dinheiro, seria o caso de recorrer a um empréstimo do BCG, o Banco Central da Guiana, para comprar o submarino. Henrique Meirelles, presidente do nosso BC, fala inglês e fala bem. O idioma oficial da Guiana é o inglês. Numa estada de meia hora em Georgetown, capital guianense, Meirelles descolaria os cobres necessários para comprar 10 submarinos atômicos.
Em contrapartida, ofereceria à Guiana um pacote de 20 templos da bispa Sônia e do apóstolo Hernandes, que rezam com a ministra Roussef e podem assegurar a presença de Kaká na inauguração dos edifícios. O simpático país tem tradição religiosa. Foi lá, na comunidade de Jonestown, que o pastor Jim Jones promoveu o suicídio coletivo de novembro de 1978, mandando 914 fiéis desta para a pior, a maioria tomando veneno, uns poucos ajudados pelos tiros nas cabeças.
Presumo que o leitor esteja encucado com a serventia de um submarino atômico para solucionar o problema Evo Morales, quando se sabe que o cocalero vive em La Paz, cidade situada 3625 metros acima do nível do mar. Nada mais fácil. Até Corumbá, MS, o submarino viaja submerso. Se o rio não dispuser de profundidade, temos empreiteiras em condições de fazer a dragagem do seu leito.
De Corumbá, morro acima, o submarino vai de trem até La Paz. Houve precedente durante o regime militar de 64, quando um jornalista – texto brilhante, doce figura – levou uma pistola de Corumbá para os exilados brasileiros na capital boliviana. Não invento: de trem… uma pistola! Ele próprio contou a aventura, bebendo uísque aqui em casa. Está vivo, escrevendo cada vez melhor, tanto assim que o seu texto é citado como exemplo nos cursos de jornalismo.
Foi dos feitos mais extraordinários da história: conduzir uma pistola na contramão, considerando que todas as armas clandestinas nos chegavam e nos chegam da Bolívia e do Paraguai. Episódio que merece livro e filme, até porque o jornalista encontrou de cuecas (fazia calor), no apartamento em que se escondiam os exilados, um dos mais famosos políticos deste país grande e bobo. Os personagens aí estão e o submarino foi encomendado. Lá mesmo, ainda embarcado no trem, destrói a Bolívia e salva o Pré-Sal. O resto se vê depois.
Eduardo de Almeida Reis – Pena Capital (segunda 6/julho)
A morte de um ídolo é normal. É também normal que seus fãs fiquem chocados com a notícia. Mais que normal é o fato de os meios de comunicação, refletindo o sentimento de seus leitores, ouvintes e telespectadores, noticiarem a morte do ídolo.
Onde o excesso? Na overdose. Não bastasse o Demerol, remédio que o rapaz tomava para livrar-se das dores provocadas por seus movimentos, temos tido superdose de cobertura midiática.
Hesitei antes de abordar o assunto, pelo seguinte: pautado pela editoria de um caderno especial – oito páginas em cores – escrevi sobre o acidente com os Mamonas Assassinas.Consegui arranjar inimigos na redação pelo resto dos meus dias.
Qual foi o meu crime? Afirmei que ficava triste com a notícia de um desastre que ceifou tantas vidas jovens, de mesmo passo em que disse que nunca, jamais, em tempo algum, ouvira falar dos Mamonas. Até posso ter ouvido numa rádio referência rápida ao conjunto musical, mas não me interessei pela música dos rapazes.
Pra quê?! Publicado o caderno especial, quando voltei à redação dias depois (morando noutra cidade, mandava as matérias pelo fax), encontrei uma porção de inimigos de infância, desafetos figadais, que devem ter achado um crime desconhecer a existência dos Mamonas. E olhem que lamentei, sinceramente, a morte dos jovens, embora não os conhecesse.
Conheci Michael Joseph Jackson através da tevê e das histórias que li nos jornais. Nada tinha contra o astro, muito antes pelo contrário, aliás. Mas acho que a mídia – e vou arranjar novos inimigos figadais – vem exagerando na cobertura. Dias inteiros, telejornais inteiros, primeiras páginas de todos os jornais do planeta. Um deles, editado no Rio, logo na manhã seguinte estampou em letras garrafais: “Nasceu preto, ficou branco, virou cinza”. Manchete impiedosa, mas engraçada.
Para ser justa, a imprensa deveria dedicar à morte de um benfeitor da humanidade a milésima parte da cobertura dada a Jackson. Não digo a centésima; a milésima já seria mais que justa. Lembro o nome de um judeu casado com brasileira, o doutor Albert Bruce Sabin, falecido em 1993. Graças a ele, Sabin, inventor da vacina contra a poliomielite, Jackson e seus irmãos do Jackson Five puderam encantar o público. Assim como eles, milhões de outras criaturas foram salvas da pólio pela vacina do doutor Sabin, aperfeiçoando a vacina do doutor Jonas Edward Salk.
Sabin nasceu na Polônia e emigrou para os Estados Unidos aos 15 anos, onde fez carreira. Sua morte mereceu a ingratidão de pequenas notas nos jornais, quando deveria merecer todas as primeiras páginas em tipos graúdos.
Na morte de Jackson tivemos até a notícia de que sua mãe, a senhora Jackson, fora vista dois dias depois fazendo compras num supermercado. E mais, e mais, e muito mais – numa orgia noticiosa que, no meu entendimento, ultrapassa todos os limites da lógica e do bom senso.
Uma última notícia, quando rabisco estas linhas, dava conta da construção na Bahia, por um grupo de empresários negros, de um monumento a Michael Jackson. Homenagem paradoxal a um cidadão que fez mil tratamentos para ficar branco. Deveria ser odiado pelos de sua etnia, mas é idolatrado e homenageado com um monumento. Não entendo mais nada. Nem é para entender mesmo.
Eduardo de Almeida Reis – Coluna Tiro e Queda – Em – 16/05/2009
Leitores compulsivos de jornais temos admirações e antipatias. Só leio aqueles que admiro; passo batido pelos textos de gente que me é antipática. De vez em quando, contudo, não entendo absolutamente nada do texto de um dos meus gurus. Pode ser cansaço; deixo o texto para o dia seguinte. Se continuo não entendendo xongas, sou levado a crer que o guru embaralhou seu paquê mental.
No tempo das linotipos, o velocíssimo linotipista recebia as laudas datilografadas e linotipava as linhas de composição tipográfica, amarradas em paquê ou granel. As provas de paquê eram cotejadas pelo revisor com o texto datilografado na lauda. Tudo pronto, começava a paginação.
Deu-se que uma vez, na imprensa carioca, o paquê da crônica do philosopho caiu no chão e as linhas de composição tipográfica se embaralharam no chão da oficina. Um cidadão bem-intencionado tornou a amarrar as linhas e o texto, absolutamente ininteligível, foi paginado e publicado.
O leitor nem pode imaginar o tanto de elogios que recebi naquele dia: a humanidade baba para o ininteligível. Textos muito claros, muito bê-á-bás, soam infantis; textos obscuros dão a entender que o escriba alcançou patamar acima do nosso entendimento. Portanto, devem ser elogiados.
Nesse tempo, o jornal estava sendo reestruturado por empresa contratada, da qual fazia parte um engenheiro genial, o doutor Martiniano, que ficou meu amigo. Chamou-me a sua sala e perguntou: “Você ficou maluco? Não entendi nada!”. Mostrei-lhe a lauda original e matamos a charada: o paquê caiu, embaralhou tudo, amarraram as linhas à galega e a crônica foi publicada.
Aposentadas as linotipos, já não há granéis que possam cair no chão. Portanto, quando aparece um texto incompreensível de autor da melhor supimpitude – ininteligível não só por mim, modesto ex-produtor de leite, como também por leitores que respeito e admiro – sou levado a crer que o nosso guru foi vítima de uma desarrumação no seu paquê mental. Ou, então, está brincando com os seus fãs, o que também é possível.